26.6.06

Momento Machado de Assis

Quebrando um pouco o clima dos meus textos habituais mas, acima de tudo, quebrando um pouco o marasmo que se apossou do blog, resolvi liberar o escritor de ficção que existe dentro de mim. Mentira... Na verdade eu escrevi esse conto como uma avaliação da faculdade e, como eu não tenho conseguido me inspirar para escrever nenhuma merda filosófica, resolvi postar aqui. Leiam, não vai demorar mais que o tempo de uma visita ao banheiro.
Esclarecimento: o título é "Um conto nostálgico" por determinação do professor, eu particularmente daria o título de "Dez para as três".
Lá vai:

Um conto nostálgico
(ou "Dez para as três")


Todas as vezes que eu olho para aquele velho relógio de ponteiro pendurado na parede do corredor, lembro de meu avô. Não apenas pelo fato do relógio tê-lo pertencido, assim como tantas outras coisas que mamãe herdou quando ele se foi, mas principalmente pela recordação específica que aquele relógio me traz.

Não lembro exatamente a idade que eu tinha na época, mas suponho que fosse algo por volta de sete ou oito anos. Digo isso porque me lembro que vovô já morava conosco, e também que já começava a caducar. Lembro-me claramente de passar, diariamente, os dez minutos anteriores às três da tarde inquieto, indo e vindo pelo corredor ansioso pelas badaladas do relógio.

Faltando por volta de cinco minutos, vovô largava o controle remoto da televisão no braço da poltrona, levantava-se reclamando (com palavrões que me faziam rir) de dores nas costas e dirigia-se até o seu quarto, arrastando os chinelos. Trancava-se dentro do quarto, de onde eu ouvia o barulho de sua cômoda sendo arrastada, saía ao fim de alguns instantes e voltava à sua poltrona ainda arrastando os chinelos. Mais tarde, depois de ele ter falecido, mamãe me disse que ele escondia sua carteira para que ninguém o roubasse. A idade (ou a caduquice, vai saber) o havia tornado desconfiado.

Já acomodado, fingia prestar atenção na tevê até que o relógio batesse três horas, quando me gritava. Já sabendo o que me aguardava, eu ia a seu encontro mal conseguindo disfarçar a empolgação.

- Vá à padaria e compre um maço de cigarros para o vô. – ele dizia, me fitando. – Quanto é, mesmo?

- Cinco reais. – eu mentia, com o objetivo de me apropriar do troco e comprar algo que me agradasse. Às vezes, intimamente, eu me perguntava se vovô sabia que eu o enganava. Quando pensava nisso, chegava até a sentir um princípio de culpa por estar enganando alguém de que tanto gostava, mas isso só durava até que eu saboreasse a primeira bala ou abrisse o primeiro pacote de figurinhas.

A cena se repetia dia após dia, quase religiosamente. Eu vivia sob a tensão de ser descoberto por mamãe, que decerto me daria umas boas palmadas. Felizmente, ela trabalhava a tarde toda e nunca desconfiou de nada. De tão acostumado, já chamava aquele dinheiro de “meu” e não conseguir sequer pensar na hipótese de passar um dia inteiro sem ele. Cheguei até a arrumar pretextos para acordar meu avô um pouco antes das três, nos raros dias em que ele adormecia diante da “Sessão da Tarde”.

A idade também havia tornado a memória de vovô um pouco pior. Alguns dias, mal eu voltava com o maço de cigarros e já estava meu avô a me gritar novamente. Tendo esquecido que me mandara à padaria há menos de dez minutos e ansioso por cigarros, ficava sacudindo a nota de cinco reais na mão e berrando incessantemente meu nome. Quando eu chegava, esbravejava por eu ter demorado tanto, e dizia novamente, da mesma forma que havia feito há poucos instantes:

- Vá à padaria e compre um maço de cigarros para o vô. Quanto é, mesmo?

Na maioria das vezes, eu dizia a ele que ele já me mandara à padaria e entregava os cigarros. Entretanto, dependendo do meu humor, ou da quantidade de figurinhas repetidas que houvessem vindo naquele dia, às vezes eu não resistia e dizia que resolvera fazer uma surpresa a ele e já comprara um maço com o dinheiro da minha mesada. Nesse momento, suas feições imediatamente se convertiam em um enorme sorriso, e ele me dava tapinhas nas costas dizendo que eu não precisava ter feito aquilo e que se orgulhava de ter um neto tão prestativo. Em seguida, punha a nota sobre a minha mão e dizia:

- Tome, vá comprar algo para você.

Desnecessário dizer que, nesses dias, eu corria direto para a banca de jornal e torrava todo o dinheiro antes que desse tempo de me arrepender. Nem um pouco por acaso, esses dias costumavam coincidir com terríveis dores de barriga ou com castigos por ter deixado os papéis de figurinha todos espalhados pela casa.

E a cena deve ter se repetido dessa mesma forma durante mais ou menos dois anos, ao fim dos quais o estado mental de meu avô piorou e minha mãe decidiu interná-lo em um asilo. A princípio me desesperei. Como eu faria para viver só com o dinheiro que mamãe me dava aos domingos? Como eu faria para comprar balas, figurinhas e carrinhos? E, além disso tudo, eu sentiria falta de vovô. Quem ficaria comigo durante as tardes? O que eu faria às três da tarde, no horário em que eu normalmente me encontrava escondido atrás da porta da cozinha para ouvir meu avô resmungar sobre suas dores nas costas?

No primeiro dia sem vovô, às dez para as três, lá estava eu no corredor, fitando o relógio. Qual era a utilidade daquela porcaria, agora que vovô não estava mais lá para me dar o meu dinheiro? Esperei os ponteiros marcarem três horas e o relógio tocar três vezes, mas dessa vez nada de ouvir a voz rouca de vovô gritando o meu nome. Decepcionado, me atirei da cama e não saí do quarto o resto do dia. No dia seguinte, e em todos os dias dessa semana, a cena se repetiu. Faltando dez minutos para as três eu começava a encarar o relógio, e às três ia cabisbaixo para o quarto.

Mamãe começou a estranhar, e não demorou a concluir que eu sentia falta de meu avô. Na segunda-feira, exatamente uma semana após vovô ter sido mandado para o asilo, ela me levou para visitá-lo. A visita foi curta, e ele demonstrou estar muito feliz em me ver. Confessou que sentia saudades de casa, mas que gostara do lugar onde estava. Também gostei de vê-lo, mas isso não resolvia em nada a minha situação.

A solução para os meus problemas veio na segunda visita, uma semana depois. Eu já havia perdido a esperanças de reaver a minha pequena fortuna diária, então o meu único motivo de entusiasmo ao ter a notícia de que iria ao asilo foi saber que veria o meu querido avô. Chegamos, cumprimentamos vovô e mamãe disse que teria de ir trabalhar. Eu e vovô jogamos cartas e conversamos durante um tempo. De repente, quando não havia ninguém em volta, ele me pediu que chegasse perto e sussurrou ao meu ouvido:

- Se eu pedir um favor, você me faz?

- Sim, vovô. O que é?

- Primeiro você terá que me prometer de que não contará a ninguém.

- O que é?

- Você promete?

- Sim, prometo.

- Vá à padaria e compre um maço de cigarros para o vô. Mas não deixe que ninguém o veja! Quanto é, mesmo?

- Cinco, vovô! – respondi, sem conseguir esconder o entusiasmo.

Após esse dia, pedi que minha mãe me levasse para visitar vovô duas vezes por semana. Às segundas e quintas eu passava as tardes no asilo e saía por volta das três para comprar cigarros para o vovô, que me recompensava com mais alguns trocados por manter o nosso pequeno segredo.

Infelizmente, entretanto, essa situação durou ainda menos que o período em que vovô morou conosco. Ao fim de quatro meses, vovô teve um infarto fulminante e nos deixou para sempre. À essa altura, eu já estava mais crescido e já não me importava tanto com doces e figurinhas, e havia me apegado tanto à companhia de meu avô durante aquelas duas tardes da semana que o dinheiro já não me importava tanto.

Hoje, visitando a casa de mamãe quase trinta anos depois, não consegui deixar de rir quando o relógio bateu três horas. Sentado na poltrona que antes pertencia a vovô, olhei para o lado e vi meus filhos imersos na atividade de colar figurinhas em um álbum. Calmamente, então, me dirigi à janela, de onde eu podia ver claramente a padaria e a banca de jornal, e acendi um cigarro.

6 comentários:

Anônimo disse...

Já li no onibus, gostei mto.
Tem uma carga sentimental forte, no entanto ela é passada em doses homeopáticas para não se tornar um melodrama, tornando o texto com um tom extremamente afetivo. O léxico simples se coaduna com o tema, é a pura adequaçao forma-linguagem. Um tema de carinho, sobre a relaçao de uma criança com seu avô, no qual muitos ao lerem vão se identificar. Excelente crônica, vc está no caminho certo.

Anônimo disse...

porra lek ... mandou mtu bem..
mtu bom mesmo o texto parabens
abração bixona

Anônimo disse...

O meio tava meio repetitivo..(era o objetico? O.o tbm ne?)

Mas o final foi MT bom..
mt mesmo...

abracos mlk

Anônimo disse...

Tah fodaaaaaaaastico!!
E jah disse que conseguiu fazer isso graças às experiencias e aprendizados com "Seu Norival"
Hueisaheisauheusahiesaehsahea!!

Anônimo disse...

amigo vc se superou nesse hein???
fico otimo!!!! amei mesmo!!! acho q esse eh o seu texto q eu mais gostei ate agora!!! mto foda mesmo!!!
te amooo
saudadee!!!

=****

Anônimo disse...

num preciso falar nmuito o pessoal disse tudo
Luiz Guilherme